O caleidoscópio, como se sabe, é um brinquedo contemplativo para meninos comportados, em que um punhado de vidrinhos, contas e outros fragmentos são vistos através de um cilindro de modo a compor belas figuras, à medida em que se o vai girando para misturá-los inteiramente all’aventura.
O encanto do passatempo está em como as pedrinhas combinadas ao acaso formam imagens de perfeita, rigorosa simetria e que um mínimo giro formará uma nova configuração, filha do acaso e de uma ordem que parece misteriosa, incompreensível como uma revelação, até que alguém ensine à criança que se trata de um hábil jogo de espelhos. O fascínio da aparição logo se reduz a gosto pelo engenho, a não ser para aqueles meninos que intuem algo ainda maior em um mundo regido a um tempo pela inspiração – ou fatalidade – do imprevisível e por leis perfeitas e ocultas, que ambas, tão contrárias, vivem igualmente no fundo das coisas – indiferentes como divindades que não se importam em ser compreendidas pelos homens.
Concebido como instrumento óptico em 1816 pelo matemático, astrônomo e físico David Brewster, também um conhecedor de teologia e filosofia, o caleidoscópio pretendia-se uma demonstração de suas teorias sobre a óptica da luz (e hoje sua geometria ilustra a conhecida teoria dos fractais), mas quis o imprevisto levar o invento ao gosto do público, que fez dele um êxito de vendas (homem de gabinete, Brewster descuidou-se do processo de patente).
Agradeço a visita dos que se agradam da contemplação de cada imagem, cada texto, cada música. E a dos que procuram ligar os giros do caleidoscópio. E também – poderia dizer: “mais” – dos que se interessam por essas palavras em letra miúda que acompanham cada post. Imaginei este meu passatempo assim mesmo: como algo que pudesse – esperança e pretensão – agradar várias pessoas, de algum modo, ou alguma pessoa, de vários modos.
