Por c s

Todos gostam de páginas-quem, ainda mais as ilustradas. À falta de um cafezinho, ofereço uma.

C. Schlemihl nasceu no terceiro dia de maio, em 1968.
Traz uma placa de metal precioso aparafusada no tornozelo esquerdo, que sobreviverá a ele e que legará aos homens. Não se a vê, todavia, oculta por misteriosa tatuagem que parece representar um monotrilho.
Gosta de coca sem gás e de mate com uma folha de limoeiro.
Seu completo desconhecimento das manières faz perfeito par com sua timidez de clausura.
Lê revistas de trás pra frente.
Tem miopia, astigmatismo e hipermetropia – mas não usa óculos, por preferir enxergar à Monet.
Namorou Jane Austen.
Fuma cigarros de papel Hollywood.
Distraído por vocação, desinteressado por experiência, foge de si o oiro, mas nem por isso deixa de frequentar os mais exclusivos endereços. Tanto, que costuma ser o único frequentador.
É bagunceiro feito a peste.
Seguidor estrito do fugere urbem, habita um amável e mantiqueiro recanto, a República Popular Felina de Aiuruoca, governada por Carina Augusta, gata-de-estado, com pata de ferro na primeira experiência de totalitarismo àcrata da História – que dista três horas da Guanabara e cinco de Piratininga, pelo que se considera a salvo desses estranhos sítios em que só se aventura para consultar médico ou abastecer estantes.
Nunca sabe onde botou nada –e quando sai catando, se distrai com outras coisas.
Também não sabe escrever, cozinhar ou desenhar – mas só gosta de fazer o que desconhece.
Outra de suas curiosas obras in progress é um jardim de que já se ocupa (estudos astronômicogeoclimatológicos, por um lado, e por outro, literoartísticos e ópticogeométricos) pois deverá dá-lo como presente a alguém ao cabo de cinco períodos de cinco anos – tempo bastante pra sair coisa que preste, julga – e escolher com zelo o presenteado.
Tem hábitos singulares para o repouso. Mesmo em uma cama de casal, dorme sempre no canto, deixando o outro lado com livros, revistas, controles remotos, cobertores. E não dorme sem antes arrumar junto a si despacho para algum egum, com água, biscoitos e cigarros.
Pertence a Carina, é meio-irmão, em segredo, de Pacci e “primo de consideração” de Sebastião Miar Toledo de Munhoz, gato-rei, as únicas pessoas que privam de seu convívio.

Tião Miar, the gentle giant

Tião Miar, the gentle giant


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